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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Cotas para negros: questão polêmica

A questão das cotas para negros em concursos públicos sempre suscita polêmicas. Ninguém questiona as cotas para deficientes físicos, porque todo mundo reconhece que estes estão em situação desfavorável. As pessoas dizem que os que defendem as cotas para negros são racistas, pois estão tratando-os como menos capazes de passar num concurso. Mas já vi um negro, numa palestra, falar em "racismo positivo" (positivo, não positivista, entenda-se bem). Eles são menos capazes, sim, não por questões biológicas, não por terem menos capacidade mental, mas por geralmente terem sido menos preparados. Fiz ensino fundamental numa escola particular, e na minha sala na sexta-série havia um menino negro, mas era um dentre quarenta brancos, e a minha sala era uma exceção, pois na maioria das salas não havia nenhum negro. Quando digo "negro", estou dizendo inquestionavelmente negro, pois questiona-se quem seria e quem não seria negro num país tão miscigenado, em que quase todo mundo tem um tataravô oriundo da senzala, mas é preciso ter bom senso. A pessoa pode agir de má-fé se quiser se declarar negra para obter uma vantagem apesar da cor de sua pele ser decisivamente branca, e talvez seja impossível confirmar se ela tem ou não sangue negro correndo em suas veias vindo de ancestral muito distante. Mas, vejamos bem, talvez cada pessoa enxergue a cor "vermelho" de uma forma, dizem até que as mulheres percebem mais matizes que os homens, mas, no geral, há um consenso, e a minoria da sociedade é daltônica. A pessoa, pela simples cor da pele, já passa por restrições, sim. Todo mundo comenta da hora dos pais escolherem uma criança para adotar, se tiver um bebê branquinho de olho azul no meio de dez crianças negras, o bebê branquinho vai ser disputado a tapa.

Já que eu já aprendi que, ainda mais em questões polêmicas, sempre é necessário dizer o óbvio, vamos lá: eu disse sobre os negros estarem em desvantagem em relação a brancos frente a concursos públicos. Citei o caso do meu colega e amigo negro, como representante de uma exceção. Todo mundo sabe que os negros foram trazidos de seu continente de origem, a África, para atuarem como escravos, em condições degradantes. Não interessa se eles já se escravizavam entre si na África, os romanos também escravizaram os gregos e ninguém se utiliza desse argumento para desfavorecer os descendentes de europeus, seja lá o que for "europeu" nesse caldeirão de raças que sempre foi a Europa [sim, a globalização não começou ontem. Não deve ser à toa que os italianos do sul são mais morenos que um nórdico, e o último a falar em pureza de raças foi Hitler. Mas os europeus, seja lá o que essa palavra signifique num mundo tão miscigenado, já foram o suficientemente embranquecidos, portanto sofrem menos discriminação - sim, estou falando da cor da pele, e não do sangue que corre nas veias. A questão é de cor, mesmo. Veja como o "preto" foi definido no Oxford English Dictionary no século XVI: "profundamente manchado de sujeira, gasto, empoeirado (...) aquele que tem propósitos obscuros, mortais, malignos; aquilo que se refere à morte, desastroso, sinistro (...) terrível, atroz, horrível, maléfico" (SHOHAT; STAM, 2006, p. 51) - e, apesar dessas definições serem do século XVI, não há nada de anacrônico aí: esses valores foram transmitidos de geração em geração e até hoje se perpetuam]. Enfim, como eu ia dizendo, os negros foram trazidos da África para atuarem como escravos, e após uma abolição mal feita ficaram marginalizados, pois muitos patrões ainda nem admitiam ter um funcionário negro, e, quando eles conseguiam trabalho, eram trabalhos desprestigiosos e mal remunerados. E a prole dessa gente está aí, ainda hoje, em sua maioria, quando frequenta a escola, é claro que é escola pública, que tem milhares de problemas não por ter professores mal qualificados, como muito se argumenta (eu fui professora de escola pública e constatei como meus colegas eram bons no que faziam). O principal problema das escolas públicas não é a má qualificação dos profissionais que atuam nela, e sim a falta desses profissionais. Muitas vezes falta um professor de determinada disciplina, às vezes durante um ano inteiro (ou mais) para determinada turma. E aí o processo educacional fica cheio de lacunas.

Então, esses estudantes de escolas públicas, é claro que ficam menos preparados para passar num vestibular para uma universidade federal, por exemplo, ou em qualquer concurso que seja. Por isso as cotas para estudantes de escolas públicas são menos polêmicas que as cotas para negros, mas, como disse a professora de Geografia da escola em que lecionei, os negros estão em desvantagem histórica muito grande. Daí o "racismo positivo" que o tal palestrante mencionou. Não vejo nada de absurdo nisso, e eu acho que quem é contra as cotas para negros é que são os verdadeiros racistas, pois não querem dividir a "fatia do bolo" de jeito nenhum...

É claro que a educação deveria ser toda pública também, não deveria existir escolas particulares, mas isso já daria um outro post, e mesmo assim acho que ainda existiria desvantagem para os negros, entendendo "negro" numa perspectiva de cor mesmo, e não "racial". Lembrando, a minoria da sociedade é daltônica, e é preciso não esquecer o bom senso. Nunca.

Fonte bibliográfica:

SHOHAT, Ella e Robert Stam. Crítica da imagem eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

3 comentários:

Luis Eustáquio Soares disse...

de minha parte sou favorável às cotas, embora pense que esteja
de cabeça para baixo, porque, nas universidades públicas, deveríamos ter cotas pra ricos.
a idéia de cota, portanto, está adaptada e vinculada à estrutura excluidora do capitalismo, teatro de inclusão, pra continuar excluindo.

num espaço público os direistos devem ser iguais, de sorte que os abastados possam ter o direito de lá estarem também com uma representação, digamos, de cinco porcento.

beijos
de la mancha

Luciano Baptista Domingos disse...

Belo texto amiga, Helena. Sempre bom ler algo bem postado aa respeito desse assunto polêmico. Falta bom senso como você destacou bem. A própria palavra negro ja carrega uma conotação histórica negativa (você também destacou). e aqueles grandiosos escritores begros que foram impedidos de exercer sua atividade artistica com o mesmo prestígio da elite branca? Se houvesse cota naqueela época, pra citar Cruz e Sousa ne? Pena que a maioria não conhece toda a história do Brasil. bjim

Coral disse...

"O racismo joga, portanto, com dois procedimentos complementares: 'a negação da diferença' e a 'negação da igualdade'. Ao mesmo tempo obscurece diferenças da experiência histórica e nega a igualdade das aspirações humanas. Diante das exigências de correção 'afirmativa' das injustiças sociais, o grupo dominante se torna partidário da igualdade (tratemos todos do mesmo modo), fazendo vista grossa para os privilégios que herdaram e negando as diferenças de posição e experiência. O filme 'Assassinato sob custódia' ('A Dry White Season',1989) exemplifica essa questão ao fazer o ativista negro rebater a argumentação do advogado branco e liberal sul-africano sobre a existência de uma vida baseada na experiência comum: 'Por acaso vocês também viveram as restrições, as prisões, as humilhações?'. Também o ideal liberal de 'daltonismo racial', que acredita que o progresso pode 'superar' a raça, equaciona o racismo branco e o nacionalismo cultural negro como igualmente 'obcecados pelas questões de raça'. Porém, o nacionalismo negro entende que a racionalidade integralista é simplesmente um 'discurso de poder' utilizado pelos europeus brancos para garantir e justificar sua posição privilegiada. De fato, alguns teóricos vêem o liberalismo como uma forma sublimada de darwinismo social, na medida em que slogans liberais sobre direitos e igualdade mascaram um outro conjunto oculto de credenciais sociais (o homem branco, americano, dono de propriedades) que constituem as verdadeiras bases da inclusão social. É o não-reconhecimento dessa lei das selvas 'que não está nos livros' que autoriza (...) 'um discurso de discriminação ao contrário', ou seja, uma situação na qual aqueles que sempre se beneficiaram de um favoritismo institucional acabam recorrendo à linguagem da meritocracia, das conquistas pessoais e da contra-vitimização. Esse discurso persiste pelo menos desde os dias da escravidão, quando um francês alertou que a abolição 'arruinaria a França e que ao buscar a liberdade de 500 mil negros [...] iríamos escravizar 25 milhões de brancos'. "

(Ella Shohat e Robert Stam. Crítica da imagem eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006.)