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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Estética suína

A personagem narradora do romance Porcarias, de Marie Darrieussecq, é a versão feminina de Gregor, dA metamorfose kafkiana. Uma das diferenças entre os dois personagens é que, além dela se transformar numa porca, a metamorfose dela é cíclica, vem e volta, ora ela é porca, ora humana, ora híbrida (fases de transição), ao invés de ser permanente como a de Gregor.
Vou transcrever parte do que está na orelha do livro, texto cuja autoria não é informada (talvez seja da tradutora Rosa Freire d'Aguiar, mas não é possível afirmá-lo): "Narrado num ritmo alucinante e bem-humorado, o livro é um escárnio ao puritanismo, ao culto do corpo e à obsessão pela saúde. Com sua fábula zoológica, Darrieussecq mostra que tudo aquilo que hoje chamamos de 'politicamente correto' apenas contribui para bestializar a sexualidade em nome da assepsia (transformando o desejo em perversão) e para coisificar o corpo em nome da estética (e de sua deturpação cosmética)." - providencial num tempo em que achamos shampoos custando mais de R$ 100,00
A leitura do romance flui fácil, com seu "ritmo alucinante", e sua prostituída protagonista, que é bolinada logo na sua primeira entrevista de emprego (que ela aceita!), nota no início do romance que sua pele está ficando mais elástica e mais rosada, o que inclusive excita seus parceiros.
Mas a situação vai se agravando cada vez mais e a personagem, num momento de aparência grotesca, vira modelo de uma campanha política cujo lema é "Por um mundo mais saudável", ilustrando a que ponto podem chegar os partidos políticos em suas respectivas publicidades, de escarnecer do povo (representado pela modelo) descaradamente (e de se explorar as moléstias da população, rentáveis moléstias).
E assim como é possível a identificação do leitor com Gregor (principalmente pela questão do emprego / desemprego), é possível a identificação principalmente pela leitora com a "Grande Porca", já que nossos hormônios nos submetem também a um processo cíclico (lembrando que há outros processos cíclicos vividos pelo ser humano, inclusive pelo homem) e nossa pele pode ficar mais rosada e mais elástica devido a uma alergia qualquer, enfrentamos o problema da depilação e não vemos outra saída a não ser nos empanturrar de cosméticos (aliás, virou obrigação ter cabelo liso?).

Um comentário:

si disse...

salve, coralina coral, lendo sua resenha dá vontade de ler o livro, que não li.
me lembrou a porca de hilda hilst, essa deusa-porca, de devir humano-bestial, em que, de alguma forma, representando o bando, o súdito, o oprimido, no estado de exceção em que vivemos, um estado de exceção em que a porca, ou de que a porca é sua metonímia, seu deslocamente condensado, posto que é o estado de exceção pra manter esse emporcado estado de coisas, cujo outro lado é a civilização coméstica, máscaras de vampiros.
beijos
saudações,
luis de la mancha